Anúncios golpistas continuam a prosperar no Instagram e Facebook

Anúncios fraudulentos nas plataformas da Meta não é um assunto novo. Há anos usuários reclamam de cair em golpes a partir de publicidade no Instagram e Facebook. Quem nunca caiu ao menos uma vez, ou não conheça quem já caiu, é uma pessoa de muita sorte.

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De acordo com um levantamento realizado pelo Uol, nada menos que o segundo maior anunciante na única categoria auditável na plataforma foi um perfil golpista. Já desativada, a conta Ane Bellandi investiu nada menos que R$ 2,5 milhões entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025 para anunciar seus “produtos”. Tudo um grande golpe, e pelo visto muito rentável.

Apenas o governo federal gastou mais com publicidade nas plataformas da Meta no período, com R$ 2,6 milhões. Isso considerando a categoria “sociais, eleições ou política”, que tem informações acessíveis por ter conteúdo considerado sensível.

O perfil falso anunciava programas de governo, como mutirões para quitar dívidas ou liberar auxílios do governo. E é apenas um entre milhares de exemplos de perfis que anunciam páginas falsas que são criadas unicamente com o objetivo de dar golpe nos usuários das redes sociais.

Existem golpes de todos os tipos: falsas lojas de bijuterias, roupas íntimas, até auxílio para migração pode ser golpe. E provavelmente é, em se tratando de anúncios nas redes sociais da Meta. Tudo porque a empresa de Mark Zuckerberg não exige registro de documentos ou informações detalhadas a seus anunciantes. Isso abre muita brecha para criminosos, pois torna difícil o rastreamento posterior.

Fora Facebook
Meta, dona do Facebook, mantém informações sobre anúncios sob sigilo (Thought Catalog/Unsplash)

Lembrando que a receita de publicidade paga é a principal fonte de lucro da Meta. A empresa mantém a maior parte das informações sobre anúncios sob sigilo. Questionada pela reportagem do Uol, a empresa limitou-se a dizer que não permite fraudes em suas plataformas. Mas falhou em explicar quais procedimentos usa para evitá-los — se que é aplica algum.

Como funcionam os golpes

As fraudes são difíceis de ver a olho nu. Na verdade, tudo indica um grande golpe, pois são prometidos mundos e fundos: seja para auxiliar com a burocracia em processos junto a governos, seja com produtos de última geração que não têm igual. Mas, às vezes, são anúncios comuns, de produtos aparentemente normais, de uma loja que não existe e nunca entrega.

Os criminosos aproveitam a brecha gigantesca no sistema de anúncios da Meta para prosperar e enganar milhares de pessoas todos os anos. Primeiro, eles criam contas descartáveis no Facebook, necessária para também criar um perfil profissional no Instagram.

Com isso, eles inserem um meio de pagamento válido para começar a disparar anúncios. Para refinar, eles ainda escolhem o público-alvo usando uma conta com assunto específico, incluindo política, como ficou evidente com o golpe do perfil Ane Bellandi. Assim, o algoritmo se encarrega de espalhar o falso anúncio para perfis mais propensos a clicar.

Para evitar problemas, o perfil é desativado após algum tempo, sem deixar rastros. Como a Meta não exige documentação, fica praticamente impossível encontrar o golpista depois. O processo é simples e altamente rentável, ficando apenas alguns usuários furiosos com um perfil ou loja que sequer existe quando se dão conta do golpe.

Ficha do golpe demora a cair

A corretora de seguros Lucimeire Braga caiu no golpe do perfil Ane Bellandi e explicou ao Uol como era o processo. Segundo ela, a publicidade que a atraiu tinha vídeo com um suposto repórter anunciando a última semana do “Feirão Limpa Nome do Serasa”.

“Eu estranhei, mas, como ia acabar o prazo, decidi fazer logo para não perder a oportunidade”, relatou ela. “E estava no Instagram, né? Não ia desconfiar”, justificou.

Alguns golpes usam nome do Serasa e imagem do presidente Lula
Alguns golpes usam nome do Serasa e imagem do presidente Lula (Reprodução/Tab/Uol)

Ao clicar no link, ela foi redirecionada a uma conversa com um chatbot — ou pelo menos é o que aparentava. Ela inseriu seu CPF e logo apareceu na tela seu nome completo, o de sua mãe e uma dívida de R$ 5.000. Para resolver tudo, o bot pediu um Pix de R$ 140, no nome da Cash Pay, uma intermediadora de pagametnos.

Demorou para ela se dar conta do golpe. Foi só algum tempo depois, quando entrou em contato por telefone com o Serasa para cobrar a limpeza de seu nome. A Cash Pay não se responsabiliza pela transferência e se recusa a revelar a identidade de quem recebeu o valor. Lucimeire preferiu nem mesmo fazer boletim de ocorrência porque acha muito difícil até mesmo para a polícia encontrar os criminosos.

Evite cair em golpes

Segundo Débora Salles, coordenadora do NetLab, da UFRJ, que pesquisa fraudes digitais em parceira com o Ministério da Justiça, esses golpes são ações orquestradas. Anúncios e links promovidos são praticamente idênticos, e aparecem repetidamente em várias contas diferentes nas plataformas da Meta.

“Existe a tentativa de pulverizar o golpe, mas temos evidências de que é uma indústria coordenada de golpes. Só não conseguimos vê-la por inteiro”, afirmou a especialista.

A Meta se esquiva da responsabilidade, se aproveitando do fato de o PL das Fake News não ter sido sequer votado até hoje (foi abandonado após tendência de ser rejeitado). Um dos objetivos da lei era tornar as big techs responsáveis pelas fraudes por elas impulsionadas.

O Marco Civil da Internet só responsabiliza as plataformas no caso de elas não removerem conteúdos fraudulentos após ordem judicial. Os golpistas se aproveitam disso apagando eles próprios o conteúdo antes mesmo de alguém notar o golpe — ou assim que alguém percebe. Não há tempo para a Justiça agir de nenhuma forma.

Ou seja, sobrou para o próprio usuário tentar se desvencilhar dos golpes nas redes sociais — e na rede, de maneira geral. Então, o que fazer para evitar cair em ciladas? Desconfiar de tudo e de todos. Eu recomendo não acreditar em absolutamente nenhuma publicidade nas plataformas da Meta: Facebook, Instagram ou mesmo Threads, que (ainda) não tem publicidade.

Parece radical, mas é a maneira mais eficaz de evitar cair em golpes tão difíceis de rastrear.

Fonte: Tab/Uol

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